Archive for novembro, 2009

O CRIME PERFEITO

O primeiro homicídio a gente nunca esquece. Não foi premeditado, nem a sangue-frio, mas o gostinho que ele deixa, para o bem ou para o mal, é inesquecível. Depois de matar alguém, você nunca mais é o mesmo.

Hoje contarei como matei Jean Baudrillard. Sim, o filósofo/sociólogo francês não morreu doente em 06 de março de 2007. Ou melhor, morreu sim, mas não só por isso. Quem o matou fui eu, admito.

Dois ou três dias antes de sua morte, estava eu na Livraria da Travessa, na Avenida Rio Branco, escolhendo que livro levaria pra casa. Achei uma pilha de livros dele, folheei um a um, com calma, tentando me decidir qual levaria. Até que percebi que não, não estava afim de ler nada dele naquele dia.

Ao devolver a pilha de livros à prateleira, no plano simbólico disparei um tiro direto no peito do autor francês. E, assim como as Torres Gêmeas entenderam que o ataque da Al Quaeda foi o único acontecimento real de nossos tempos, e por isso resolveram se implodir, Baudrillard compreendeu que a minha recusa à sua obra significava que sua hora havia chegado, entregando-se a morte. No plano simbólico, eu o assassinei.

O detalhe: a morte dele ocorreu no dia do meu aniversário.

Desde então carrego na consciência este ato hediondo. Não tive sangue nas mãos, foi tudo muito limpo, até mesmo asséptico. Voltei a ler o cara depois disso, mas aparentemente não tenho o dom da ressurreição.

Já pensei em fazer um ritual de magia do caos para evocá-lo, nem que seja pra pedir desculpas. Mas tenho medo, pois sei que, do outro lado do Abismo, ele vai me falar “E aí, foi real o bastante para você?”.

novembro 19, 2009 at 10:47 pm Deixe um comentário

FALA EVA E ADÃO BEM RÁPIDO

FALA EVA E ADÃO BEM RÁPIDO

Gênesis. Adão e Eva, todo mundo conhece a história. O primeiro homem, a primeira mulher, uma cobra, uma maçã. A primeira cagada. Dizem no lado aí de cima que a maçã significa o conhecimento, ou a primeira vez que Adão deu no couro. Mas do lado de cá o que se conta é diferente.

A maçã na verdade simboliza o arrependimento. Foi quando Ele viu que tinha feito merda. Ficou puto não pela desobediência em si, mas ao perceber que tinha aberto a Caixa de Pandora (que na época era dEle mesmo, o politeísmo ainda não tinha sido inventado). “Puta que o pariu!” foram as divinas palavras saídas de seus lábios onipotentes. O pior é que na época Ele ainda não tinha inventado o Estagiário, essa entidade que serve pra gente jogar a culpa sempre que algo dá errado.

Quer dizer, até dá pra entender o Velho Barbudo. Se os humanos foram criados à imagem e semelhança divina, Ele não deve ter gostado muito de ter se visto no espelho.  Afinal, o primeiro filho do casal primordial matou o segundo pra agradar Deus. Se na época já existisse a pólvora, o primeiro homem-bomba já estava inventado. Mudam os métodos, permanece a intenção.

Está certo que Ele podia ter desfeito tudo num estalar de dedos, mas aí já tinha se apegado aos bichinhos. Pense no seu cachorro: ele pode cagar na casa toda, querer transar com tudo que vê na frente, pular na perna das visitas, ficar latindo pro nada de madrugada. Só que, apesar de tudo, você acha ele legal e tem sentimentos sinceros pelo animal. É a mesma coisa entre Deus e os homens. A diferença é que a humanidade desenvolveu a inteligência e bolou maneiras criativas de matar seu semelhante – espadas, revólveres, bombas atômicas. O Pai fez o que nós faríamos, expulsou os bichos da sala – o Paraíso – e mandou pro quintal – a Terra. Se um dia o cachorro aprender que o tapete persa não é toalete, pode voltar pro Paraíso.

Quem se deu mal nisso tudo foi Jesus. Ele estava quieto no canto dele, curtindo a vida eterna, daí chega o Velho e diz “Essa pica é tua, Aspira!”.  Deu no que deu. O coitado do Messias até que tentou, mas até hoje, dois mil anos depois, parece que ninguém aprendeu.

Jesus sofreu pra cacete naquela cruz. Demorou pra morrer também, pro seu azar. Pouco antes de partir dessa pra melhor (no caso dele, com certeza pra *muito* melhor), Ele encarou fixamente o Abismo, que, como sabemos, sempre olha de volta. Foi quando falou “Senhor Zero-Um, missão cumprida!”, no que ouviu em resposta “Essa você põe na conta do Papa”.

 

novembro 2, 2009 at 9:53 pm 2 comentários


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