Biblioteca do Abismo: Os Dias da Peste, de Fábio Fernandes

agosto 3, 2010 at 9:41 pm 9 comentários

O capitalismo inventou a obsolescência programada, mas ninguém imaginou que um dia o Homem, ou o wetware, ficaria obsoleto também. A Ficção Científica, cujo papel é moldar o futuro, e não prevê-lo, foi a primeira a pensar nisso. Talvez pra já ir preparando o terreno pro dia em que a máquina nos tornará tão relevantes quanto o neandertal.

Mas como será a transição pro dia em que formos para o beleléu? Uma boa tentativa de resposta está em OS DIAS DA PESTE, romance do escritor Fábio Fernandes (que também é professor, tradutor, jornalista, dramaturgo e blogueiro de longa data), publicado pelaTarja Editorial .

O livro nos apresenta Artur Matos, professor e técnico de computadores, tendo que lidar com uma estranha infecção das máquinas, que no início suspeita-se que seja um vírus, mas logo percebe-se que há mais do que um simples tilt nos computadores. Artur vai então formulando hipóteses, até descobrir a verdade, e como a humanidade lida com ela, no evento que fica conhecido pelos habitantes do futuro como Convergência.

Na introdução, a esc-ape Lucida Sanz do ano de 2109 (esc nos lembrando do digital, da tecnologia, e o ape nos remetendo ao que temos de animal e primitivo) nos apresenta o diário de Artur Matos, dos anos de 2010 a 2016, seja em formato de blog ou de podcast. A própria introdução faz um jogo de idéias, afinal estamos lendo um livro de papel, que já está se tornando ultrapassado, sobre como a humanidade ficará ultrapassada – a ausência de hyperlinks e atualizações do livro em papel nos remetendo a ausência de atualização do Homem. Mas não seriam as próteses, óculos, entre outros, indícios de que o Homem pode sim receber atualizações? E, a medida em que a tecnologia evoluir, até que ponto a introdução dele em nossos corpos nos manterão ainda como homens, ou nos tornarão ciborgues ou mesmo máquinas? É esse o tipo de questionamento que perpassa todo o livro.

A dificuldade do protagonista em nomear sua máquina (não vou entrar em detalhes pra não exagerar nos spoilers) traduz essa angústia em reconhecer na máquina o Outro. Nomear significa individualizar, significa demonstrar afeto ou algum tipo de emoção, em encarar a máquina como igual, ou menos como sujeito de direitos.

Outro aspecto a se destacar é que a Ficção Científica normalmente possui a divisão em distópica ou utópica, mas o livro é ambos e nenhum ao mesmo tempo. Para o habitante de 2109, o presente é claramente muito melhor e superior ao passado descrito nos diários, mas do ponto de vista de quem viveu de 2010 a 2016, será que esse futuro é tão melhor assim? Essa dualidade de pontos de vista nos mostra o quanto se ganhou e o quanto também se perdeu com o advento da Convergência.

E tudo isso, meus amigos, na prosa clara e divertida do Fábio, com bastante citações pops e acadêmicas, num texto ágil e gostoso de ler. E o protagonista não imaginou o quanto estava certo quando disse, a certa altura do livro, que “ninguém detém a marcha do progresso – mesmo que essa marcha leve direto para o abismo”.

P.S. Você pode ler um trecho do livroaqui

Anúncios

Entry filed under: Uncategorized.

Mergulho no Abismo A Space Blooks vem aí!

9 Comentários Add your own

  • 1. Romeu Martins  |  agosto 3, 2010 às 9:48 pm

    Muito boa a resenha!

    Responder
    • 2. rafaelluppi  |  agosto 3, 2010 às 9:57 pm

      Valeu! 🙂

      Responder
  • […] This post was mentioned on Twitter by fabiofernandes, Romeu Martins, Sylvio Gonçalves, Alliah Art Insane, rafaelluppi and others. rafaelluppi said: No blog, resenha de Os Dias da Peste, de @fabiofernandes http://migre.me/125N7 […]

    Responder
  • 4. Octavio  |  agosto 3, 2010 às 10:12 pm

    Curta e no talo. Todas as resenhas deveriam ser assim.

    Responder
    • 5. rafaelluppi  |  agosto 3, 2010 às 10:20 pm

      Valeu, Octa! Olha que vou acreditar e fazer mais resenhas 🙂

      Responder
  • 6. Fabio Fernandes  |  agosto 3, 2010 às 10:32 pm

    Excelente resenha, Lupo. Muito obrigado. Como todo bom crítico (porque, apesar do tamanho exíguo do texto, ele consegue atravessar a membrana fina que separa uma resenha de uma crítica), você acessou certos canais a que nem o autor tinha acesso no momento da escrita. Por exemplo, a menção à esc-ape artist Lucida Sanz. Eu criei o trocadilho do esc-ape pensando sim no ESC, mas confesso que o APE não havia me ocorrido, veja você!!! Obrigado por ter iluminado meu texto para mim mesmo! Fiquei mais feliz agora.

    Responder
    • 7. rafaelluppi  |  agosto 3, 2010 às 11:01 pm

      Valeu, Fábio! Achava que o trocadilho tinha sido intencional, veja só! O seu livro é muito bom, espero estar ajudando a divulgá-lo.

      Agora, tenho que confessar, esses comentários estão me incentivando a escrever mais!

      Um abraço!

      Responder
  • 8. Bernardo  |  agosto 6, 2010 às 6:39 pm

    Muito legal a sua resenha. Fiquei curioso pra ler o livro…

    Grande abraço!

    Responder
    • 9. rafaelluppi  |  agosto 7, 2010 às 2:25 pm

      Valeu, Bernardo! Se quiser, posso te emprestar.

      Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s

Trackback this post  |  Subscribe to the comments via RSS Feed


Agenda

agosto 2010
S T Q Q S S D
« jun   maio »
 1
2345678
9101112131415
16171819202122
23242526272829
3031  

Most Recent Posts


%d blogueiros gostam disto: